Mensagem do Bispo: Sagrada Escritura

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Foto: Diocese de Uberlândia

Sagrada Escritura

Dom Paulo Francisco Machado

“Toda Bíblia não faz senão narrar o amor de Deus” (Santo Agostinho).

Dia 30 de setembro, a Igreja traz à sua memória São Jerônimo, um incansável estudioso da Bíblia e seu tradutor para o Latim É a famosa Vulgata. No Brasil, toda a Igreja celebra o Mês da Bíblia. Tomar a Bíblia para ouvir Deus. Na Palavra, Jesus vem ao nosso encontro, e, Ele mesmo é Palavra, Verbo, Vida.

A Sagrada Escritura apresenta-nos a Gramática de Deus. Ora, ler e estudar uma Gramática, creio, não é agradável para o comum das pessoas. Ainda me lembro, quando no primeiro ano ginasial, correspondente à 6ª série de nossos dias, com emoção recebi a Gramática Expositiva da Língua Portuguesa, de Napoleão Mendes de Almeida. Estranhamente, não estava a par do conteúdo do texto. O que me entusiasmou foi a grossura do texto, volume alentado do livro e, logo após, chega a Gramática Latina, mais volumosa, do Padre João Ravizza. Passado aquele momento de entusiasmo “caí na real”. Como era difícil guardar tantos detalhes linguísticos.

Quando tomamos a Sagrada Escritura, temos em mãos uma pequena biblioteca de 73 livros reunidos em alentado volume a ultrapassar mil páginas.

Caro irmão, façamos a seguinte experiência:  tomar a Sagrada Escritura como se fosse um romance Sagrado, percorrer sua gramática do amor. Recordo-me que se o romance for demasiadamente longo e às vezes maçante como, no meu entendimento, “A montanha mágica” de   Thomas Mann, é bem difícil enfrentar esse desafio. Mas uma narrativa viva, cheia de peripécias, personagens fortes e frágeis nos torna atento e animados para prosseguir na leitura.

Na Palavra, procure em cada página sentir, desde o primeiro versículo de Gênesis até ao último do Apocalipse, o paterno abraço do Criador para com cada pessoa, o enamoramento divino pelos humanos, porque um dia seu Filho teria o nosso rosto, o nosso jeito de ser. A vida de Deus em Cristo é partilhada conosco. A obra da criação em seu início tem por estribilho: “Deus viu que era bom “. O motivo é lógico: o Sumo bem só pode fazer boas coisas. Considere, imagine os cenários e esteja atento às passagens românticas do Cântico dos Cânticos. Assim, acompanhe os passos aflitos da noiva à procura do “amado de seu coração’. Ora, Deus é assim, em cada momento de nossa vida com ansiedade Ele nos procura.

Pela longa via da Palavra, podemos sair ao encontro da graciosa Rute, numa das mais belas novelas, e segundo Goethe, uma verdadeira joia da literatura universal. O leitor poderá joeirar o trigo ao seu lado e perceber como é agradável a companhia de uma pessoa fiel e prestativa. Rute é modelo para todas as noras do mundo.

Será preciso entender o seguinte: a beleza de uma novela, de um bom romance depende de uma série de desafios a serem enfrentados com garbo pelo ator. A Bíblia tem como protagonista, nada menos do que o próprio Deus, a sofrer com a ingratidão e a infidelidade de seu povo amado. Deus “sofre, sofre, sofre…” sem se deixar abater porque Ele “não se deixa vencer pelo mal, vence o mal pelo bem” (Rm 12,21). Penso, é isso que torna tão bela essa memorável história de amor. Deus não desiste de seus filhos, antes, mais cresce seu afeto para conosco, mesmo quando nos distanciamos Dele. A inesquecível parábola do Pai misericordioso, no capítulo 15 de Lucas, recorda-nos isso.

Tão profundo é o amor divino por nós que Ele desejou fazer a experiência de, como homem, viver entre nós: “e o Verbo armou sua tenda e habitou entre nós” (Jo 1,14).O Filho vem ao encontro de nossa pobreza, assume as nossas limitações, Ele, o Absoluto Infinito, comunga de nossa humanidade para comunicar-nos a divindade. Sua vida nas três décadas de sua vida terrena é Palavra viva, é Mensagem de salvação. Na sua opção de Amor, Jesus livremente se deixa crucificar e, no madeiro, sofre o Pai na dor de entregar seu Unigênito, o amado gerado eternamente no seu seio; sofre o Filho que na sua humanidade real, se angustia diante da crucificação ao ponto de suar sangue para obedecer e, o Espírito Santo, na força poderosa de seu amor, estimula Jesus na sua livre entrega, como a oferecer-lhe consciência do sentido da cruz para a nossa salvação.

A Sagrada Escritura, como toda grandiosa novela, tem final feliz. Deve-se passar da morte para a vida, da derrota para a vitória e da humanidade para a divindade, de modo que no Filho, nos tornamos filhos. Tudo isso celebramos nos altares, fazendo memória de sua Páscoa. As águas matriciais do Batismo e o Corpo e Sangue do Senhor aumentam nossa capacidade de amar como Ele amou.

Na Palavra, encontramos Jesus. Será necessário pedir as luzes do Espírito para contemplar o amor divino e viver sob o impulso desse amor. Quando nos dispomos a peregrinar pelas Páginas Sagradas, vamos ao encontro de personagens frágeis ou fortes, virtuosos ou dominados pelos mais baixos vícios. Percorremos os pobres lares onde se cozem pães sobre uma pedra quente. Por vezes, sentimos o odor dos lagares no esmagar os bagos de uva, percorremos pomares, contemplamos as searas com seus dourados trigais e mesmo, aspiramos o perfume derramado nos pés de Jesus por uma pecadora na casa do fariseu Simão. A Palavra evoca cores, sabores e perfumes.

Após suplicar as luzes do Espírito Santo leia, releia, trileia uma passagem da Bíblia, pois há quem, com autoridade científica, afirme que a melhor maneira de interpretar a Bíblia é ler muitas vezes um dado texto (o que afirmava Lucien Cerfeax sobre a leitura do Evangelho).

Terminou o mês da Bíblia. Que ela não seja guardada num canto da sala para retomá-la empoeirada, um ano depois, numa estante. Ela é luz para nossos passos durante todo o ano. Não nos cansemos de peregrinar continuamente pelas Páginas Sagradas. Por elas sentimos os suaves perfumes do amor de Deus.